domingo, 15 de novembro de 2020

Propriedade vocabular

 A crise na Venezuela trouxe ao noticiário questão de propriedade vocabular. Qual a palavra adequada para nomear a linha que separa os dois países? Alguns falam em fronteira. Outros, divisa. Limite também aparece. Os três substantivos separam, mas entes diferentes. Guarde isto:


Fronteira separa países.


Divisa separa estados.


Limite separa municípios.

A peça de teatro é exibida ou encenada? Guarde isto:


Exibe-se algo pronto: um quadro, um filme, uma escultura, um programa de TV, uma novela.

Uma peça de teatro ganha vida a cada representação. É encenada, representada.

Que calor! Brasília parece um forno. Boa parte do Brasil também. Daí por que entraram em cartaz quatro adjetivos — quente, frio, alto, baixo. Atenção para a propriedade vocabular. Frio e quente usam-se para tempo (tempo quente, tempo frio, dia quente, dia frio, tarde quente, tarde fria). A temperatura não pode ser quente nem fria. É alta ou baixa.

Não troque as bolas. Obter quer dizer ganhar, granjear, conquistar o que se deseja, o que se busca. Por isso só o use em sentido positivo: O time obteve vitórias (nunca obteve derrotas). Paulo obteve 90 pontos no concurso. Maria obteve o cargo pelo qual lutou durante dois anos.

Sabia? Na língua existem verbos-ônibus. Eles funcionam como transporte coletivo. Cabem em 42 contextos e um pouco mais. Imprecisos, causam má impressão. Denunciam o redator preguiçoso ou pobre de vocabulário. Fazer é um deles. Ultimamente ganhou novo assento. É o tal de fazer aula disto e daquilo. Ou fazer um câncer, uma tuberculose, um aneurisma. Cruz-credo! É possível substituí-lo por outros mais precisos. Com um cuidado: sem pedantismo, afetação ou rebuscamento.


Exemplos não faltam. Fazer uma carta? É escrever ou redigir a carta. Fazer um discurso? É proferir o discurso. Fazer uma fossa? É cavar a fossa. Fazer uma estátua de mármore? É esculpir a estátua de mármore. Fazer o trajeto de carro? Melhor percorrer o trajeto. Fazer direito é cursar direito. Fazer a cama? É arrumar ou forrar a cama.


Fazer não substitui cometer, praticar, ter. Fazer erros? É cometer erros. Fazer faltas? É cometer faltas. Fazer aulas? É ter aulas, assistir a aulas. Fazer uma música? É compor ou tocar uma música. Fazer mortes? É provocar mortes.

E a febre do defender continua. Eta modismo persistente! Já me insurgi, em artigo de três anos atrás, contra o uso abusivo desse verbo. Mas não tem jeito. Defender virou ônibus: sempre cabe mais um.


O uso insistente de um único verbo para expressar situações diferentes é, no fundo, sintoma de pobreza vocabular. O natural de uma língua é enriquecer com o passar do tempo. Novos vocábulos vão-se juntando aos existentes até formar um léxico gigantesco. Estranhamente, a língua brasileira, em lugar de se tornar mais rica, empobrece. Para cada novo vocábulo que entra no circuito, uma dúzia dos antigos sai da boca do povo pra recolher-se na poeira dos dicionários. É pena.




Chamada Estadão 27 ago 2018


Volto a sugerir ao distinto leitor que, caso esteja pra cair na tentação de usar defender no sentido de preconizar, pense em substitui-lo por outro mais sugestivo.


Na chamada do Estadão, ficaria mais elegante dizer, por exemplo, que «Dallagnol propõe não votar em envolvidos…». Essa é apenas uma possibilidade. Há dezenas. Uma lista (não exaustiva) de verbos que podem ‒ nesse caso e com vantagem ‒ substituir defender está aqui:


Preconizar, aconselhar, orientar, recomendar, sugerir, propor, indicar, prescrever, estimular, insinuar, pregar, solicitar, elogiar, lembrar, requerer, exigir,, exaltar, pedir.


Cada um deles carrega nuance diferente. Na hora de usar, basta escolher o que melhor convier.


Ah! É bom ter sempre em mente o que doutor Dallagnol “defende”. Votar em corrupto? Só faltava.


(José Horta Manzano)

“A gente pensa uma coisa. Diz outra. O leitor entende outra. E a coisa propriamente dita desconfia que não foi dita.” Mário Quintana parece brincar conosco, pobres autores e leitores, pobres falantes e ouvintes. Mas não está. Ele sabe que a língua é malandra que só. Poderosa, prega peças e arma ciladas. Dizemos uma palavra pensando dizer outra. Damos um recado na certeza de que acertamos o alvo. Ledo engano. Não raro a mensagem é contrária à pensada ou não tem nada a ver com a original. Pior: de tão repetidas, as armadilhas soam familiares, certas como dois e dois são quatro. Quer ver?


Tempestivo x intempestivo


A duplinha não tem nenhuma relação com temperamento. Nem com temperamental. Ela pertence à família de tempo:


Tempestivo = que vem ou sucede no tempo devido, oportuno: Consideraram a ação judicial tempestiva. O advogado apresentou o recurso tempestivamente (no prazo).


Intempestivo: fora do tempo próprio, inoportuno: A ação foi intempestiva. Manifestou-se intempestivamente.

Não confunda tempestivo com tempestuoso, que tem relação com tempestades climáticas.

Liderança = a qualidade do líder, o espírito de chefia: O regimento prevê voto de liderança. O chefe deve ter liderança. O técnico, sem liderança, não conseguiu evitar o conflito. Esta é a sala da liderança do partido.


Líder = pessoa que exerce a liderança: Os líderes do Congresso discutiram o projeto hoje. O presidente vai negociar com os líderes que se opõem ao projeto. Há partidos que têm mais líderes que liderados.

Atenção, gente fina. Muitos caem no modismo. Usam opção e alternativa como sinônimos. Mas são diferentes. A precisão vocabular impõe a diferença. Veja:


Opção = saída, possibilidade, recurso: Antes de decidir, avaliou as opções que lhe ofereciam. Na prova com cinco possibilidades de respostas, duas opções eram muito parecidas. Fiquei em dúvida.


Alternativa = escolha entre duas opções. Por isso, fuja de outra alternativa ou única alternativa, que é pleonasmo. Por quê? A alternativa é sempre outra. Se não há outra, só pode ser única: Perdi o voo. A alternativa foi esperar o próximo. Não havia alternativa para o problema. E agora? Qual a alternativa?

Usar a palavra mais adequada ao contexto. É o caso da mudança para o céu. Quarenta dias depois da Páscoa, Jesus, ressuscitado, voltou pra casa, sozinho, sem ajuda. O ato milagroso se chama ascensão, e o verbo, ascender (subir), que não tem nada a ver com acender (iluminar). Maria seguiu o filho, mas precisou ser levada. Sua subida às alturas se denomina assunção.

As duas palavras são parentes próximas. Mas pertencem a classes diferentes. A menor é adjetivo. A maior, advérbio:


Independente = livre: O Brasil ficou independente de Portugal em 1822. 


Independentemente = sem levar em conta: Ganha o mesmo salário independentemente do número de horas trabalhadas.

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