Thiago Bezerra escreve: “Tudo que vira moda é aceito pelas pessoas até sem pensar. Mas existe moda brega, não é mesmo? Entrou em cartaz o advérbio “justamente”. Jornais, telejornais, políticos, jornalistas, advogados abusam da palavra. Ela sobra”. É verdade. A maior parte dos advérbios terminados em –mente só tem uma função — sobrecarregar a frase. Quer ver?
João deve sair (provavelmente) às 6h. Provavelmente deve ser usado apenas em caso de dúvida. Em caso de certeza, prefira certamente.
Cumpriu a ordem (exatamente) como o chefe determinou.
(Atualmente) todo mundo tem celular.
A reclamação era (completamente) inoportuna.
Disse (exatamente) isso, sem tirar nem pôr.
Os pacientes odeiam (principalmente) ter de esperar.
É (terminantemente) proibido ultrapassar o limite. Como a proibição é sempre expressa, não existe algo meio proibido.
Nesse período, acho que a área social foi a que mais sofreu. Eu acabei de trocar o secretário (justamente) por isso. Justamente significa com justiça, e não precisamente, exatamente.
Xô! Xô! Xô!
Atenção ao modismo:
1. Inclusive não é partícula de reforço. Empregue-a como antônimo de exclusive, e no fim de uma enumeração: O curso se estende de 24 de janeiro a 2 de fevereiro, inclusive.
No meio da frase, deve-se usar incluindo: Compareceram todos os jogadores, incluindo os da reserva.
2. Não a use como sinônimo de até em frases como esta: O presidente sugeriu, inclusive, que o preço dos combustíveis poderia cair. O certo é: O presidente sugeriu que os preços dos combustíveis até poderiam cair.
Realizar virou modismo. Não o use no lugar de fazer, promover, celebrar, inaugurar, efetuar, lançar, desenvolver. Use-o só no sentido de tornar real.
Em vez de “realizar missa, batizado e casamento”, é melhor celebrar.
Em vez de “realizar curso ou oficina”, promover (quando é instituição) e ministrar (quando é professor).
Em vez de “realizar show”, estrear.
Em vez de “realizar exposição”, abrir, inaugurar ou apresentar.
Cuidado com o modismo. Use chamado só quando você falar de algo cujo nome não é o referido, mas é conhecido como tal. Não há por que escrever, por exemplo, os “chamados exames preventivos”. Exame preventivo é exame preventivo. O cinema não é a “chamada” sétima arte. É a sétima arte. As praças onde se reúnem os drogados não é a “chamada” cracolândia. É a cracolândia. As ONGs não são o “chamado” terceiro setor. São o terceiro setor.
O aviãozinho partiu de Santa Catarina rumo a São Paulo. O voo transcorreu sem problemas. Na hora de pousar, ops! Algo falhou. A aeronave despencou. Jornais, sites e tevês divulgaram o fato. Nove entre 10 notícias tropeçaram no modismo. Assim: “Dos sete ocupantes do avião, quatro foram arremessados para fora e os outros três tiveram de ser retirados das ferragens”. Reparou? O pronome outros sobra. Xô! Assim: Dos sete ocupantes do avião, quatro foram arremessados para fora e três tiveram de ser retirados das ferragens.
As palavras, como as pessoas, têm manias. Combinam. Brigam. Fazem exigências. Armam ciladas. Um verbo cheio de caprichos é acontecer. Elitista, ele tem poucos empregos. E quase nenhum amigo. Mas, por capricho do destino, os colunistas sociais o adotaram. A moda se espalhou como fogo morro acima ou água morro abaixo.
O pobre virou praga. Tudo acontece. Até pessoas: Phillipe Coutinho está acontecendo na Seleção. O casamento acontece na catedral. O show acontece às 22h. E por aí vai.
Violentado, o verbo vira a cara. Esperneia. E se vinga. Deixa mal quem abusa dele. Diz que o atrevido sofre de pobreza de vocabulário. Para não cair na boca do povo, só há uma saída. Empregá-lo na acepção de suceder de repente.
Acontecer dá sempre a ideia do inesperado, desconhecido: Caso acontecesse a explosão, muitas mortes poderiam ocorrer.
O verbinho de sangue azul sente-se muito bem com os pronomes indefinidos (tudo, nada, todos), demonstrativos (este, isto, esse, aquele) e o interrogativo que: Tudo acontece no feriado. Aquilo não aconteceu por acaso. O que aconteceu?
Xô, abuso
Não use acontecer no sentido de ser, haver, realizar-se, ocorrer, suceder, existir, verificar-se, dar-se, estar marcado para. Se você insistir, prepare-se. É briga certa. Melhor não entrar nessa. Busque saídas.
Uma delas é substituir o verbo: O show acontece (está marcado para) às 21h. O festival aconteceu (realizou-se) no ano passado. O crime não aconteceu (ocorreu). Acontecem (ocorrem) casos de prisão de inocentes durante as batidas policiais. O vestibular está previsto para acontecer em dezembro (previsto para dezembro). Não aconteceu (houve) o rigoroso inverno.
Outra é mudar a frase: A prisão aconteceu ontem. (A polícia prendeu o ladrão ontem.) A divulgação do resultado acontece logo mais. (O resultado será divulgado logo mais.) O início da prova aconteceu às 8h. (A prova iniciou-se às 8h.)
É um mistério. Modismos chegam tímidos. Repetem-se aqui e ali. De repente, não mais que de repente, viram praga. É o caso do sufixo -izar. Outro dia, alguém disse sem corar: “É preciso perdoalizar os inimigos”. Valha-nos, Deus! O que fazer? Boa parte dos feiosos dá ideia de movimento. Pode ser substituída por verbos mais precisos, familiares e pra lá de simpáticos.
Eis exemplos:
agilizar (apressar), desincompatibilizar-se (deixar o cargo), equalizar (igualar), fidelizar (conquistar), independentizar (liberar), integralizar (completar), oportunizar (dar oportunidade), otimizar (melhorar, aperfeiçoar), publicizar (divulgar, publicar).
É lugar-comum afirmar que a língua muda. Organismo vivo, está a serviço dos falantes. Eles, como a água que passa sob a ponte, nunca são os mesmos. Movimentam-se, misturam-se, transformam-se. Viva!
Mas, por motivo que até Deus ignora, algumas deixam de circular. Ficam estagnadas. Resultado: viram moda. Depois, praga. O uso se intensifica por influência do rádio, da tevê, da internet. São os modismos, que pegam com a rapidez da água morro abaixo ou do fogo morro acima.
Podem ser palavras ou expressões que passam a ser empregadas em sentido diferente do usual. Uma das mais recentes é gratidão. Por contágio talvez do emoji da internet, as mãozinhas postas substituíram o vocábulo obrigado. Não só nas mídias sociais. Também na fala. Vamos combinar? É uma chatice. Usar a imagem no zap ou no e-mail tudo bem. Mas fora daí? Xô! E gratiluz? Mais uma invenção desnecessária.
Estes são o novo a nível de:
deletar - Só use em textos de informática. Nos outros casos, use excluir, apagar ou eliminar.
detonar - Só se forem bombas. Nos outros casos, use gerar, despertar ou provocar.
contabilizar - Só em textos de contabilidade. Nos outros casos, use somar ou totalizar.
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